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Materiais Tradicionais Portugueses que Contam a História de Portugal
Antes de poder ser criada uma peça de artesanato é preciso existir uma matéria-prima, seja ela a madeira de uma árvore que cresceu durante décadas, o linho vindo de uma plantação, a lã de um rebanho de ovelhas, as fibras e palhas que alguém recolheu ou o barro retirado da terra.
Muitos destes materiais começam a ser recolhidos em Portugal com um propósito diferente, mas ao longo dos anos ganharam uma segunda vida e utilidade pelas mãos e técnicas desenvolvidas por artesãos. Foram transformados nos mais variados objetos, peças utilitárias, peças decorativas e obras de arte, que sempre contam histórias sobre a diferente cultura, tradições e regiões onde nasceram e que tornam Portugal tão especial.
Nas linhas abaixo vamos falar um pouco de algumas destas matérias primas tanto utilizadas no artesanato português, muitas mais existem mas não estender demasiado este artigo optamos por escolher as mais características e utilizadas pelos artesãos do nosso país.
Cortiça a matéria-prima da paisagem portuguesa
É difícil pensar em Portugal e não pensar na cortiça, aliás somos o maior produtor mundial deste material.
Retirada à mão e com mestria (para que a árvore não seja danificada) do tronco do sobreiro, a cortiça faz parte da paisagem portuguesa localizada principalmente no Sul e no Centro do país, formando ecossistemas chamados montados. Esta tornou-se um dos materiais naturais e sustentáveis mais característicos do país. Sendo conhecida sobretudo pela sua utilização em rolhas, no entanto devido às suas propriedades também é utilizada para os mais diversos fins, como isolamentos de paredes, acessórios, decoração, malas, carteiras e outros objetos.
Ao longo dos anos a sua leveza, resistência e versatilidade fizeram com que um material tradicional encontrasse novas utilizações. O artesanato português não é excepção onde nascem e são criadas regularmente novas ideias de peças feitas em cortiças.
Linho, uma planta que se transformou numa tradição
Muito antes de existir uma peça de tecido feita em linho, existe a planta (Linum usitatissimum) uma planta herbácea tradicionalmente cultivada no Norte e Centro do país, devido ao clima fresco e húmido.
O linho faz parte da própria identidade cultural e artesanal de Portugal. Com uma tradição secular profundamente enraizada no Norte e no Centro do país — em regiões como o Minho, Viseu e Aveiro —, esta fibra natural moldou o quotidiano de gerações através do famoso "ciclo do linho", um processo rigoroso que vai desde a sementeira na primavera até à tecelagem manual no tear de madeira, uma matéria-prima de extrema importância a nível económico nestas regiões portuguesas, tendo inclusive servido como moeda de pagamento.
A tecelagem de toalhas, panos, peças de vestuário e artigos para a casa fizeram parte do quotidiano de muitas famílias. Embora a produção industrial em grande escala tenha dado lugar a tecidos importados, o linho português vive atualmente um renascimento focado na sustentabilidade e no design contemporâneo, associado à simplicidade, à qualidade e ao trabalho manual.
É um bom exemplo de como uma matéria-prima aparentemente simples pode carregar consigo uma parte importante da memória de um país.
Lã, a fibra animal que veio das montanhas
A história da lã em Portugal confunde-se com a própria identidade cultural e económica do país, remontando a origens ancestrais que moldaram a paisagem e a indústria têxtil nacional. Nas regiões mais frias de Portugal, a lã encontrou naturalmente o seu lugar.
Na Serra da Estrela, por exemplo, a tradição da lã deu origem a tecidos e peças que durante gerações foram utilizados para proteger do frio. Entre eles encontra-se o burel, um tecido tradicional de lã conhecido pela sua resistência e durabilidade.
A lã portuguesa durante muito tempo esteve associada sobretudo ao vestuário dos pastores, mas no século XX vestiu as forças militares e as classes trabalhadoras através do Burel — um tecido artesanal de lã de ovelha bordaleira, altamente resistente e impermeável. Com o aparecimento das fibras sintéticas e a globalização a partir da década de 1970, muitas fábricas fecharam, e a lã portuguesa perdeu valor comercial, chegando até a ser tratada como resíduo e descartada.
Hoje a lã em Portugal vive uma fase de revalorização e reinvenção ganhando novas utilizações e aparecendo em peças contemporâneas, decoração e design e artesanais. A lã mostra-nos que o artesanato não precisa de ficar preso ao passado, pode e tem de evoluir mas sem perder a sua identidade e origem.
Madeira, a matéria-prima mais antiga
A madeira é uma das matérias-primas mais antigas utilizadas pelo ser humano, pela sua abundância, características e enorme sua versatilidade. Portugal não podia ser diferente e diferentes regiões desenvolveram os seus próprios conhecimentos sobre trabalhar a madeira, aproveitando as espécies disponíveis localmente. Em Portugal, o pinheiro-bravo, o eucalipto, o castanheiro, o pinho, a cerejeira, o carvalho e outras madeiras são largamente aplicadas na construção civil, mobiliário e soalhos, dando origem a móveis, utensílios, brinquedos, objetos decorativos e peças de uso quotidiano.
A matéria-prima pode ser semelhante, mas no artesanato serve para criar desde brinquedos populares e miniaturas rurais até tamancos, pipas, mobiliário rústico e colheres de pau, etcc que muda é a região, a técnica e, sobretudo, a mão de quem trabalha.
Palha e fibras naturais, a simplicidade que funciona
Nem tudo no artesanato precisa de ser complexo ou muito elaborado, durante muitas gerações, materiais simples como, o vime, o junco, a palha (de trigo ou centeio), a palma (palmeira-anã), a cana e o esparto foram transformados em cestos, esteiras, chapéus, mobiliário, objetos para o dia a dia e peças decorativas.
A cestaria tradicional é um excelente exemplo de criatividade baseada na necessidade, uma das práticas de artesanato mais presentes em Portugal, desenvolveu-se pela existência da planta vimeiro em todo o território. No passado, antes de ser considerada como decoração ou artesanato, o ofício destinava-se a dar resposta às necessidades agrícolas da comunidade local, auxiliando principalmente na altura da vindima e na desfolhada, uma cesta tinha uma função, servia para transportar, guardar ou trabalhar.
Hoje, muitas dessas técnicas permanecem vivas e encontram novas aplicações no artesanato, no design e na decoração, a utilização do vime é uma prova de que aquilo que era indispensável ontem pode tornar-se em arte hoje.
Barro, a matéria que nasce pelas mãos
Também conhecido popularmente como argila, é uma das matérias-primas mais antigas e fundamentais da história da humanidade. Extraído diretamente da terra e de leitos de rios, este elemento natural combina terra e água para ganhar uma plasticidade única, permitindo que seja moldado pelas mãos habilidosas de artesãos e oleiros.
Em Portugal, a tradição da utilização do barro assume identidades próprias de cada região, o famoso Barro Negro de Molelos e o de Bisalhães, conhecido pelo seu processo de cozedura ancestral ou os barros vermelhos de Nisa, Barcelos ou São Pedro do Corval. Mais do que um simples recurso mineral, o barro é um elo de ligação às nossas raízes, carregando consigo a identidade, a cultura e a memória de gerações de artesãos.
Há algo de especial no barro, talvez porque, antes de ser uma peça, é simplesmente terra, e porque dá origem a uma enorme variedade de objetos, desde peças utilitárias a figuras decorativas e artísticas. Embora presente em praticamente todo o país, o Alentejo é uma região particularmente conhecida pela sua tradição de olaria, com diferentes localidades a desenvolverem técnicas e estilos próprios, estas técnicas são tão particulares que fazem parte do património cultural de cada região e são reconhecidas internacionalmente.
É também no barro que conseguimos perceber melhor a importância da mão do oleiro que o molda: uma pequena diferença na forma, na textura ou na pintura pode transformar completamente o resultado final.
Pedra, o solo que nos transforma
Portugal assim como muitos outros países também conta a sua história através da sua pedra, pela sua abundância geológica o país possui uma enorme tradição extrativa. As pedras naturais mais utilizadas e extraídas são o granito ou calcário, o mármore ou o xisto, materiais que desempenham um papel fundamental tanto na construção civil quanto na arquitetura e decoração e fazem parte da identidade de diferentes regiões.
Nas Aldeias do Xisto, por exemplo, o próprio xisto está profundamente ligado à paisagem e à construção tradicional das aldeias.
Na internacionalmente conhecida Calçada Portuguesa, presente nos pavimentos das cidades portuguesas, tradicionalmente feita com calcário branco para a base do fundo e basalto preto ou calcário preto para criar os padrões e os desenhos decorativos. É um exemplo onde matéria-prima deixa de ser apenas um material, e passa a fazer parte da paisagem e da cultura de um país.
O valor dos materiais no artesanato português
Quando olhamos para uma peça artesanal numa loja, vemos normalmente o resultado final. Mas existe muito mais por trás dela, existe a matéria-prima, existe a técnica, existe a cultura e tradição da região e acima de tudo existe uma pessoa que aprendeu aquela arte com alguém que, por sua vez, também o aprendeu com outra e por isso esta foi passada de geração em geração.
O artesanato tem uma característica muito importante e que o diferencia da produção com máquinas, duas peças aparentemente semelhantes nunca são exatamente iguais.
O artesanato português não é apenas aquilo que é feito à mão. É também uma forma de preservar conhecimentos, materiais e histórias que fazem parte da identidade do país, uma peça artesanal, por mais pequena que seja pode significar muito mais do que parece.
Quem visita Portugal procura muitas vezes uma lembrança para levar para casa, mas uma boa lembrança não precisa de ser apenas bonita, mas precisa criar uma ligação por mais pequena que seja ao lugar que visitamos.
Uma peça feita em Portugal pode transportar consigo a paisagem de uma região, uma técnica tradicional ou simplesmente o trabalho de alguém que decidiu continuar a fazer as coisas com as próprias mãos.
Novos designers, artesãos e pequenos produtores recuperam materiais e técnicas tradicionais e encontram novas formas de os utilizar, mantendo viva uma tradição que não precisa de ficar parada no tempo.
Na Portugal Care, procuramos precisamente peças que tenham essa ligação a Portugal: objetos feitos por artesãos e pequenos produtores portugueses, onde a tradição e a criatividade continuam a encontrar-se, uma peça de artesanato para poder levar consigo um pequeno pedaço da história de Portugal.
Gostou de conhecer um pouco mais sobre os materiais que fazem parte da tradição portuguesa?
Descubra a nossa seleção de artesanato português feito em Portugal ou visite-nos no centro de Aveiro.